
O cinema cearense se prepara para receber uma obra profundamente conectada à história, à paisagem e ao imaginário do Sertão Central. O longa-metragem “Nova Terra”, dirigido pelo cineasta Fram Paulo, encontra-se em fase de finalização após ser contemplado pelo edital da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), por meio da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará. O recurso viabiliza a conclusão de um projeto que já havia sido integralmente gravado e que agora se consolida como uma das obras mais autorais do realizador.
“Nova Terra” é um longa-metragem de ficção que acompanha a trajetória de um grupo de sete jovens artistas de teatro, personagens marcados por histórias pessoais atravessadas por conflitos, perdas e processos de reconstrução. Em busca de transformação, eles decidem se isolar no sertão para montar uma peça teatral, vivendo uma espécie de retiro artístico em meio à paisagem árida e simbólica do Semiárido cearense.
O isolamento do grupo os conduz a uma jornada que dialoga com a memória ancestral da região. Ao longo da narrativa, os jovens passam a seguir a chamada trilha sagrada dos povos da Mata Branca, povos originários que habitaram o Sertão Central e deixaram registros materiais de sua existência em forma de pinturas rupestres.
As filmagens aconteceram em Senador Pompeu, Quixeramobim e em áreas que integram o projeto do Geoparque Sertão Monumental, território marcado por grande relevância, geológica, histórica e arqueológica. Entre os cenários estão locais como a Pedra do Letreiro, onde se concentram centenas de inscrições rupestres atribuídas aos povos originários da região.
O filme também se ancora fortemente nas lendas do Sertão Central, especialmente na narrativa da Serra do Encantado, localizada na região de Quixeramobim. Segundo a tradição oral, após confrontos com colonizadores — episódios que teriam dado origem a locais como o Riacho do Sangue em Solonópole — parte dos povos originários teria seguido uma trilha até a serra, considerada um território sagrado.
Produzido com baixo orçamento, “Nova Terra” foi realizado em ritmo intenso, com gravações concentradas ao longo de aproximadamente três meses, principalmente aos fins de semana, conciliando a rotina de estudos e trabalho do elenco e da equipe técnica. A maior parte do elenco é formada por artistas locais, reafirmando o compromisso do projeto com a valorização dos talentos do Sertão Central.
A produção é assinada pela Uzina Filmes, produtora audiovisual fundada em 2005, cuja trajetória está profundamente ligada à memória histórica e cultural do Sertão Central. A Uzina desenvolve projetos que dialogam com episódios marcantes da região, como o antigo campo de concentração de flagelados da seca de 1932, em Senador Pompeu, hoje lembrado pela Caminhada da Seca, realizada anualmente em homenagem às milhares de pessoas que sofreram e morreram durante o período.
A previsão é que “Nova Terra” seja lançado no segundo semestre deste ano, com exibições iniciais em Senador Pompeu, Quixeramobim e outras cidades da região, antes de circular por diferentes territórios e projetos de difusão cultural. “A ideia é começar pelo território onde tudo nasceu e depois ampliar essa circulação”, afirma o cineasta.
Mais do que um filme, “Nova Terra” se apresenta como um mosaico audiovisual que entrelaça memória, ancestralidade, arte e resistência, convidando o público a revisitar o sertão não apenas como cenário, mas como protagonista de sua própria história.
