
Localizado no centro de Rondônia, o município de Ji-Paraná abriga um ecossistema de bioeconomia latente que busca reconectar a população com a natureza, como mostra o mapeamento realizado pelo programa de fomento EcoAm. De acordo com o levantamento, há ao menos 20 cadeias produtivas e espaço de produção no território, desde agricultura familiar diversificada até turismo rural e de base comunitária, com 25 empreendimentos ativos.
A pesquisa “Bioeconomia e Territórios da Amazônia”, realizada por meio do programa EcoAM, aponta que a cidade é um ponto de convergência entre o avanço urbano e o histórico de desmatamento com as possibilidades de uma nova forma de produção que respeite e aproveite o melhor da natureza. Dentre as pressões detectadas está o agronegócio, guiado pela exploração de gado e soja. O material pode ser acessado gratuitamente em: https://impact-hub-manaus-1.rds.land/mapeamento-ecoam.
Apesar disso, a bioeconomia emerge em Ji-Paraná como uma linguagem de pertencimento. A pesquisa identificou a força do modelo em agricultores familiares que reinventaram sua produção, cooperativas lideradas por mulheres e associações de ribeirinhos e comunidades indígenas. No entanto, há grandes desafios para o público de pequenos produtores, como a falta de acesso a crédito e a burocracia, o que leva milhares de jovens a deixar a cidade por falta de oportunidades.
“Produtores, lideranças comunitárias e organizações locais reconhecem o que está errado, e, mais do que isso, sabem o que precisa mudar. Há, entre eles, um desejo coletivo de construir um modelo que una produtividade, cultura e floresta viva, rompendo com lógicas antigas de exploração e exclusão. Essa tensão é um alerta para os riscos de repetir velhas práticas que enfraquecem o território, é um convite para reinventar as formas de produzir, viver e cuidar da Amazônia”, destaca o levantamento.
No meio de todos esses desafios, as cadeias produtivas de Ji-Paraná mostram sinais de força e oportunidades, com destaque para o café amazônico, o cacau fino e nativo, a castanha-do-brasil, o mel e a apicultura cooperada, o pescado e a piscicultura, além da produção artesanal de sabão, cosméticos naturais e turismo comunitário.
Dentre os empreendimentos mapeados estão o Cacau Raiz, Chocolates Jaru, Toque Amazônico, Loja da Floresta e a Cooperativa de Produtores de Leite e Agrícola. Idealizadora da Cacau Raiz, a empreendedora Melissa Almeida destacou que construiu a empresa há oito anos a partir de uma necessidade: a maternidade, a qual conciliou com o trabalho.
“Nós somos uma empresa agroecológica, onde a gente faz todos os processos, desde plantar o próprio cacau até o produto final. E a gente trabalha de forma agroecológica, então nossas embalagens são biodegradáveis e todos os nossos parceiros também são sustentáveis”, disse.
Melissa Almeida ressaltou ainda que a Cacau Raiz sempre buscou fomentar o trabalho das mulheres do campo, incentivando, comprando os insumos produzidos por elas, as direcionando para a empresa, que possui uma unidade em Ji-Paraná.
“Eu tenho fornecedora de cacau, fornecedoras de frutas. Hoje a gente apoia muito e incentiva a agricultura familiar. Temos desafios na questão da logística, de abrir vendas, mas graças a Deus as coisas estão caminhando”, completou.
Rede de apoio
A pesquisa da EcoAm revelou a existência de pelo menos 22 instituições atuando como apoio das iniciativas de Ji-Paraná, incluindo a Universidade Federal de Rondônia (Unir), que atua por meio de programas de extensão universitária junto a cooperativas. Há parcerias também com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a União Nacional das Cooperativas da Agricultura Popular e Economia Solidária (Unicafes-RO) e o Programa de Educação do Cooperativismo Solidário (Pecsol).
Os negócios com potencial de crescimento também podem se beneficiar pela chegada de oferta de crédito como o Programa de Microcrédito Produtivo Orientado (Pronampe), o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – Bioeconomia (Pronaf Bioeconomia) e o Fundo Constitucional de Financiamento do Norte (FNO). A grande questão, agora, é fazer com que as comunidades possam acessar esse crédito e investir nos bionegócios da região.
“O território pede menos burocracia e mais conexão. Cada cooperativa, cada negócio e cada escola é uma célula desse organismo vivo que se chama bioeconomia. E quando o crédito, o conhecimento e o mercado se encontram, nasce um novo ciclo da autonomia local, da renda sustentável e da valorização da identidade rondoniense”, aponta a pesquisa.
EcoAm
“Apesar de estar no arco do desmatamento, a região de Ji-Paraná tem grandes áreas preservadas e uma organização cooperativa exemplar. Trabalhar a agricultura familiar, sistemas agroflorestais e a estruturação de cadeias fortes na região, como a castanha e o cacau, são estratégias de desenvolvimento da bioeconomia. Além disso, possui um potencial empreendedor enorme. Pois muitos negócios do agronegócio surgem dali. Queremos contribuir para que os negócios da bioeconomia surjam também”, afirmou o gerente do programa EcoAm, Washington Silva.
O relatório “Bioeconomia e Territórios da Amazônia” é uma iniciativa desenvolvida pelo Programa EcoAm, em atividade desde 2024 e executado pelo Impact Hub Manaus em parceria com o BID Lab, laboratório de inovação do Banco Interamericano de Desenvolvimento, através do Programa Amazônia Sempre, o Instituto Meraki, Fundo Vale e o Sebrae Amazonas. O programa escolheu os territórios de Ji-Paraná (RO), Rio Branco (AC) e Tefé (AM), em expansão para os municípios de Tabatinga (AM) e Marabá (PA), para a realização de seu projeto piloto.

A iniciativa já apoiou 17 negócios da bioeconomia na Amazônia e destinou R$ 1 milhão em investimentos por meio de duas edições do programa de aceleração Lab de Impacto. O material pode ser acessado gratuitamente em: https://impact-hub-manaus-1.rds.land/mapeamento-ecoam.
(Crédito: Divulgação)
