
Curta-metragem cearense reúne histórias reais, ciência, arte e espiritualidade para ampliar o debate sobre os usos terapêuticos da planta
Fortaleza recebe, no próximo fim de semana, a conclusão da primeira etapa das filmagens do curta-metragem “Tempo Bom”, produção audiovisual que propõe um olhar humano, sensível e poético sobre o universo da cannabis medicinal e seus múltiplos impactos na vida de pacientes, famílias e profissionais da área.
Com direção do artista visual Isleudo Soares (Pirata Hemfil) e do psicólogo e produtor Hidário Matos, o documentário aposta em uma narrativa observacional e sensorial, entrelaçando relatos reais, elementos da cultura urbana, pesquisa e linguagem artística para conduzir o público por uma experiência que percorre “da semente ao paciente”.
A proposta é lançar luz sobre um tema ainda cercado de preconceitos, mas que já faz parte da realidade de milhares de brasileiros. “O filme convida a sociedade a enxergar essa pauta com mais humanidade. Estamos falando de cuidado, acesso, dignidade e transformação social”, destaca Hidário Matos.
Ao longo da obra, a planta aparece como símbolo central da narrativa, conectando questões ligadas à saúde, economia, resistência, espiritualidade e afeto. O curta também apresenta personagens que vivenciam diretamente esse cenário em crescimento no Ceará e no Brasil.
A equipe técnica reúne nomes como Alex Meira, na direção de fotografia; Rui Ferreira, na edição; Daniel Mota Belém e Wellington Vieira, no som direto e assistência; além de Idson Ricart, responsável pela trilha sonora original. A produção é assinada por Bruno Monteiro e Márcia Medeiros.
Contemplado no 15º Edital Ceará de Cinema e Audiovisual, o projeto teve gravações realizadas em Fortaleza, Caucaia, Aquiraz e Capistrano, registrando diferentes realidades e experiências ligadas ao tema.
Ampliação e novos apoios
Agora em fase de edição, “Tempo Bom” busca ampliar o alcance da produção por meio de apoio institucional e patrocínios via Lei Rouanet. A ideia é aproximar empresas e organizações de um projeto audiovisual com relevância cultural e social, capaz de estimular reflexões sobre um debate cada vez mais presente na sociedade.
“Falar da ‘Plantinha’ é falar sobre tempo: tempo de cuidado, de espera e de transformação. Esse é um tempo muito importante para quem se relaciona com ela”, resume Hidário.
LOGLINE
“Tempo Bom” acompanha, a partir do Ceará, mães, pacientes e profissionais que tiveram suas vidas atravessadas pela cannabis medicinal. Entre ciência e afeto, o curta revela como experiências íntimas se transformam em um debate público urgente no Brasil.
SINOPSE
“Tempo Bom” é um curta-metragem documental que investiga o universo da cannabis medicinal no Ceará a partir de histórias reais, cultura, espiritualidade e ciência. Com linguagem poética e observacional, o filme transforma a planta em personagem simbólica de uma narrativa sobre cuidado, transformação social e novos olhares sobre o tema.
EQUIPE TÉCNICA
Direção: Isleudo Soares e Hidário Matos
Pesquisa e roteiro: Hidário Matos
Produção executiva: Daniel Leão e Sérgio Granja
Direção de produção: Bruno Monteiro
Coordenação de produção: Márcia Medeiros
Direção de fotografia: Alex Meira
Assistência: Wellington Vieira
Som direto: Daniel Mota Belém
Edição: Rui Ferreira
Trilha sonora original: Idson Ricart
ENTREVISTA — Hidário Matos
“Tempo Bom fala sobre uma planta, mas principalmente sobre pessoas e transformação”
Como surgiu a ideia do documentário?
O projeto nasceu da nossa própria vivência. Tanto eu quanto o Isleudo somos pacientes e utilizamos a planta há alguns anos. A partir disso, fomos entrando nesse universo e percebendo como existia uma grande rede de pessoas, famílias e ativistas sendo transformadas por ela.
Desde 2021 começamos a desenvolver a ideia do filme. Aos poucos entendemos que estávamos vivendo um momento histórico, em que a cannabis medicinal deixava de ser tabu para ocupar espaços de cuidado e esperança dentro das casas, consultórios e debates públicos.
Qual foi a abordagem escolhida para tratar do tema?
Optamos por uma linguagem mais poética e observacional, fugindo do formato tradicional de entrevistas. Queríamos algo mais artístico, que provocasse sensações e não apenas transmitisse informações de forma didática.
O filme constrói significado através da montagem, do som e das relações entre as cenas. Misturamos ciência, cultura, fé, cotidiano e mercado para mostrar como esse assunto atravessa diferentes dimensões da vida.
Qual o diferencial estético do curta?
A estética funciona como um mosaico sensorial. Trabalhamos com cortes secos, elipses, pontes sonoras e recursos ficcionais que também servem como crítica social.
A “Plantinha” aparece quase como uma personagem simbólica. O ciclo dela acompanha o ciclo humano — da semente ao cuidado, do preconceito ao entendimento.
A trilha sonora original, inspirada em referências afro-indígenas e instrumentos orgânicos, também fortalece essa experiência afetiva e sensorial.
Qual a importância de discutir esse tema no cinema atualmente?
É uma discussão urgente. Estamos falando de saúde, qualidade de vida, acesso e também de preconceito e desinformação.
Muita gente ainda não conhece os benefícios terapêuticos da planta ou sequer possui acesso a esse tipo de tratamento. O cinema tem força para humanizar o debate e ampliar a informação de maneira sensível e duradoura.
Mais do que um filme sobre cannabis, “Tempo Bom” fala sobre cuidado, direitos e transformação social.
Como vocês esperam que o público receba o filme?
Esperamos que as pessoas saiam tocadas e mais abertas ao diálogo. Que consigam olhar para além dos estigmas e compreender as histórias humanas por trás desse universo.
Não fizemos um filme para convencer ninguém, mas para revelar uma realidade que já está acontecendo. Se alguém terminar a sessão dizendo “eu nunca tinha pensado nisso dessa forma”, sentimos que o filme cumpriu sua missão.
