
Na tarde de terça-feira, 21 de julho, o Clube de Leitura e Artes de Cuamba promoveu o lançamento do livro A Privação da Angústia, da autoria do escritor moçambicano Domingos Raul Escrever Qualquer. O evento reuniu mais de 150 participantes, entre académicos, estudantes, membros do Governo, representantes de associações, empreendedores, escritores e membros da sociedade civil.
A apresentação da obra esteve a cargo do académico PhD Graciano Pedro Pessuro, que destacou a importância de os jovens continuarem empenhados na sua formação intelectual e humana. Segundo o apresentador, a escrita constitui uma forma de exteriorizar ideias, pensamentos, medos e angústias, transformando experiências íntimas em património colectivo.
Durante a sua análise da obra, Pessuro explicou que o autor desloca o conceito de cicatriz do corpo para o interior do ser humano, lembrando que existem dores invisíveis, que nenhum olhar consegue perceber, nenhuma fotografia consegue revelar e nenhum exame consegue diagnosticar. São marcas deixadas pela memória, pela perda, pela culpa, pela ausência e pela saudade.
Ao comentar o poema “Essa dor revelou-me que o sofrimento é cicatriz adormecida; não morre com os calendários”, afirmou que a obra desafia a ideia de que o tempo cura todas as feridas.
Para o académico, algumas dores apenas adormecem e podem despertar novamente através de uma lembrança, de uma voz, de um lugar ou mesmo do silêncio.

Referindo-se ainda ao poema “Carregamos dores que recusam cessar… fantasmas do passado que assombram o futuro”, destacou que o livro retrata fielmente a condição humana, lembrando que todos carregam dores invisíveis, perdas, sonhos interrompidos e batalhas silenciosas. Na sua perspectiva, cada poema funciona como um espelho onde o leitor encontra não apenas a voz do poeta, mas também as suas próprias memórias e experiências.
Pessuro considerou que a força da obra reside precisamente na sua capacidade de transformar uma experiência individual numa reflexão colectiva. Defendeu que a literatura tem a missão de dar voz ao sofrimento silenciado e permitir que os leitores reconheçam nas palavras do poeta sentimentos que muitas vezes nunca conseguiram expressar.
Segundo o académico, Domingos Raul transforma a angústia em linguagem, o silêncio em poesia e a dor em beleza, sem a romantizar. Acrescentou que A Privação da Angústia não oferece respostas prontas, mas convida o leitor à reflexão, ensinando-o a olhar para as suas cicatrizes com dignidade. Manifestou ainda a convicção de que a obra ocupará um lugar de destaque na literatura moçambicana contemporânea, pela profundidade filosófica, sensibilidade estética e maturidade literária dos seus poemas.
Na ocasião, o coordenador do Clube de Leitura e Artes de Cuamba, Abdul Assides, apresentou a história e os objectivos da agremiação. Explicou que o clube foi fundado a 15 de Agosto de 2022 por um grupo de jovens, professores, estudantes e amantes da literatura que acreditavam na necessidade de criar mais espaços para a leitura e para as artes no distrito de Cuamba.
Segundo Abdul Assides, o clube nasceu da convicção de que uma sociedade que lê é uma sociedade que pensa melhor, dialoga melhor e constrói um futuro mais consciente. Actualmente, o clube conta com vários escritore, incluindo da diáspora, e tem como missão promover o gosto pela leitura, aproximar os escritores dos leitores, incentivar a produção literária e utilizar a arte como instrumento de educação, cidadania e transformação social.
Em representação do administrador do distrito de Cuamba, Amado Assique, director dos Serviços Distrital de Educação Juventude e Tecnologia, felicitou Domingos Raul pela escolha de Cuamba para o lançamento da obra. Destacou igualmente a passagem do escritor pelas escolas do distrito, onde manteve encontros com estudantes, despertando em muitos jovens o interesse pela leitura, pela escrita e pelo sonho de se tornarem escritores.

O lançamento terminou num ambiente de celebração da literatura e de valorização da criação artística moçambicana, reforçando o papel do livro como instrumento de reflexão sobre a condição humana. Como foi sublinhado no encerramento da cerimónia, todos carregamos angústias: algumas gritam, outras permanecem em silêncio; algumas transformam-se em cicatrizes, outras encontram na poesia uma forma de permanecer.
Mais do que apresentar um livro, Domingos Raul ofereceu aos leitores um espelho onde cada pessoa pode reconhecer uma parte de si, confirmando o poder da literatura de transformar a dor em palavra e a experiência individual numa memória colectiva.
O evento teve o apoio do Hotel Castel, Delícias da Vila, Farmácia Fam SU.Lda, FDL Serviços e da repartição da Cultura.
