
Dor nas relações, ressecamento vaginal, queda do desejo e mudanças na relação com o próprio corpo podem persistir após o tratamento; ginecologista e mastologista, fisioterapeuta pélvica e psicóloga abordam os cuidados dessa fase
O Outubro Rosa coloca prevenção, diagnóstico precoce e tratamento do câncer de mama no centro da conversa sobre saúde feminina. Mas o acompanhamento também precisa incluir outra discussão: o que acontece com a mulher depois das etapas mais intensas do tratamento?
No Brasil, essa é uma questão que alcança um número expressivo de mulheres. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos casos de câncer de mama feminina por ano entre 2026 e 2028, o equivalente a um risco estimado de 71,57 casos a cada 100 mil mulheres. Desconsiderando os tumores de pele não melanoma, a mama responde por cerca de 30% dos novos casos de câncer estimados entre as brasileiras.
Preservar a vida é a prioridade do tratamento. O cuidado, porém, também precisa considerar como essas mulheres vivem durante e depois dele.
Uma das dimensões que podem permanecer em silêncio é a sexualidade.
Dor durante a relação, ressecamento vaginal, redução do desejo, sintomas da menopausa, fadiga, medo, alterações na imagem corporal e dificuldade de reconhecer o próprio corpo depois de uma cirurgia podem repercutir na intimidade. Cirurgia, quimioterapia, radioterapia e algumas terapias endócrinas também podem interferir, direta ou indiretamente, na saúde sexual.
Para a Dra. Fernanda Bauk, ginecologista e mastologista, ampliar a ideia de sucesso do tratamento é fundamental.
“O primeiro objetivo é tratar o câncer e preservar a vida. Mas existe uma mulher depois desse tratamento. Ela pode ter muitos anos e décadas pela frente. Quando a fase mais intensa termina, precisamos olhar também para qualidade de vida, saúde vaginal, sexualidade, autoestima e para a maneira como ela volta a ocupar o próprio corpo”, explica.
Sobreviver não significa que a mulher tenha que aceitar qualquer sequela
Depois de enfrentar um câncer, algumas mulheres sentem que não deveriam reclamar de problemas relacionados à sexualidade. A ideia de que deveriam apenas estar agradecidas por terem sobrevivido pode dificultar a busca por ajuda.
“Uma mulher pode estar muito bem do ponto de vista oncológico e continuar convivendo com dor nas relações, ressecamento, alterações geniturinárias, perda importante do desejo ou sofrimento com a própria imagem. Isso não é ingratidão. São questões legítimas de saúde e precisam ter espaço na consulta”, afirma Fernanda.
A literatura científica aponta que problemas sexuais entre sobreviventes do câncer de mama são frequentes e podem permanecer subdiagnosticados e subtratados. As alterações podem envolver desejo e interesse sexual, excitação, orgasmo, conforto e dor genitopélvica.
Nem sempre, porém, a paciente inicia essa conversa espontaneamente. Vergonha, receio de parecer preocupada com algo “menos importante” diante de uma doença grave ou desconhecimento das possibilidades terapêuticas podem fazer com que o assunto não chegue ao consultório.
Sexualidade não significa apenas voltar a ter relação sexual
Retomar a sexualidade não significa estabelecer uma data para que a mulher volte a ter penetração.
Sexualidade envolve conforto, desejo, excitação, intimidade, autoestima, vínculo com o parceiro ou parceira e reconhecimento do próprio corpo.
Depois de uma cirurgia mamária, por exemplo, a relação com a imagem corporal pode mudar. Algumas mulheres passam por mastectomia, outras por cirurgia conservadora, reconstrução mamária ou procedimentos adicionais. Há cicatrizes, alterações de sensibilidade e também a experiência subjetiva de reconhecer um corpo que atravessou o câncer.
“Não existe um cronograma dizendo quando essa mulher precisa voltar a ter relações. A retomada precisa respeitar recuperação física, desejo, conforto e segurança. E, principalmente, não deveria acontecer convivendo com dor como se isso fosse inevitável”, diz Fernanda.
Quando os hormônios entram na conversa
Determinados tumores de mama são hormônio-dependentes. Por isso, discutir sintomas relacionados à menopausa e à saúde geniturinária exige cuidado e individualização.
Segundo Fernanda, um dos erros é transformar uma questão complexa em uma resposta única.
“A terapia hormonal sistêmica para sintomas da menopausa geralmente não é recomendada após câncer de mama, especialmente diante de tumores hormônio-dependentes. Mas dizer simplesmente para essa mulher que ela não pode fazer nada também está errado. Existem estratégias não hormonais e, em situações selecionadas, determinadas terapias locais podem ser discutidas de maneira individualizada e em decisão compartilhada com a equipe oncológica.”
A escolha deve considerar o tipo de tumor, os tratamentos realizados ou ainda em uso, os medicamentos e as características individuais de cada paciente. Entre as primeiras possibilidades estão medidas não hormonais, intervenções para controle da dor e educação em saúde. Em situações selecionadas, outras terapias podem ser discutidas com a equipe responsável pelo acompanhamento oncológico.
Lubrificantes e hidratantes vaginais também fazem parte do cuidado
Quando ressecamento e desconforto aparecem, recursos não hormonais, como lubrificantes e hidratantes vaginais, podem fazer parte do cuidado.
Embora muitas vezes sejam colocados na mesma categoria, eles não têm exatamente a mesma função.
Os lubrificantes são utilizados principalmente durante a atividade sexual para diminuir o atrito e proporcionar mais conforto durante a penetração. Já os hidratantes vaginais são usados regularmente, independentemente da relação sexual, com o objetivo de auxiliar na hidratação dos tecidos e no alívio de sintomas de secura e desconforto.
Para Fernanda, essa diferenciação é importante porque algumas mulheres chegam ao consultório acreditando que, diante das limitações para determinados tratamentos hormonais depois do câncer de mama, precisam conviver com esses sintomas.
“Não podemos partir da ideia de que essa mulher precisa aceitar o ressecamento ou a dor. Existem medidas não hormonais que podem ser utilizadas e, entre elas, estão hidratantes e lubrificantes vaginais. O tratamento precisa ser individualizado de acordo com os sintomas e com a história oncológica de cada paciente”, explica.
A orientação também faz parte do trabalho de educação em saúde realizado pela fisioterapia pélvica.
Segundo Regiane Migliorini, fisioterapeuta pélvica e especialista em disfunções do assoalho pélvico, diminuir o atrito pode ser especialmente importante quando a mulher já associa a penetração ao desconforto.
“O lubrificante não trata sozinho todas as causas de uma relação dolorosa, mas pode proporcionar muito mais conforto durante a penetração quando existe ressecamento. E isso também é educação em saúde. Muitas mulheres não sabem diferenciar lubrificante de hidratante vaginal ou sequer sabem que esses recursos podem fazer parte do cuidado”, afirma.
Precisar de lubrificante não significa necessariamente falta de desejo. Alterações na lubrificação podem estar relacionadas aos efeitos do tratamento, ao contexto hormonal e às mudanças nos tecidos geniturinários.
Quando existe dor persistente, acrescentar um produto não deve substituir a investigação da causa.
“Precisamos avaliar por que essa mulher está sentindo dor. Existe ressecamento? Existe alteração muscular? Há dificuldade de relaxamento? Existem outros fatores envolvidos? O produto pode ser um recurso importante para o conforto, mas não substitui uma avaliação quando existe um sintoma persistente”, explica Regiane.
O que o assoalho pélvico tem a ver com o câncer de mama?
Diante de sintomas como dor e dificuldade na penetração, a fisioterapia pélvica pode integrar o acompanhamento. Ela não trata o câncer, mas pode participar do cuidado de algumas repercussões funcionais que aparecem durante ou depois do tratamento.
“Quando uma mulher apresenta dor na penetração, por exemplo, não podemos olhar apenas para a vagina ou para a questão hormonal. Dor persistente também pode produzir respostas musculares. A mulher antecipa que vai doer, contrai, protege aquela região e pode surgir um ciclo de tensão e dor. Por isso a avaliação precisa ser individualizada”, explica Regiane.
Uma revisão sistemática publicada em 2025 investigou intervenções envolvendo a musculatura do assoalho pélvico e educação em mulheres tratadas por câncer de mama. Os pesquisadores localizaram 603 trabalhos e selecionaram 12 estudos de intervenção, dos quais seis eram ensaios clínicos randomizados.
A função sexual foi o desfecho investigado com maior frequência. Os autores concluíram que terapias ativas para o assoalho pélvico podem trazer benefícios para a função sexual e para a função muscular pélvica. Intervenções educativas também apresentaram resultados promissores relacionados à sexualidade.
Ao mesmo tempo, os pesquisadores ressaltaram que as evidências ainda são limitadas e que parte dos resultados permanece inconclusiva.
Para Regiane, essa ressalva é tão importante quanto os resultados positivos.
“Não podemos prometer que existe um protocolo único capaz de resolver a sexualidade depois do câncer de mama. O que podemos fazer é avaliar. Existe dor? Existe tensão muscular? Existe dificuldade de relaxamento? Como está a função daquele assoalho pélvico? A partir daí conseguimos entender se e como a fisioterapia pode contribuir.”
Fisioterapia pélvica não é apenas “fazer Kegel”
Quando se fala em fisioterapia pélvica, é comum imaginar apenas exercícios de contração da musculatura. Mas a dor e a função sexual exigem uma avaliação mais ampla.
Uma meta-análise de 21 ensaios clínicos randomizados, considerando mulheres com disfunções sexuais de diferentes origens, encontrou melhora em aspectos como excitação, orgasmo, satisfação e dor com treinamento do assoalho pélvico. Os próprios pesquisadores, porém, classificaram a certeza da evidência como muito baixa em razão da heterogeneidade dos estudos.
Na prática, isso significa que o tratamento não deve começar com uma lista de exercícios retirada da internet.
“Existem mulheres que precisam trabalhar à força. Outras precisam principalmente melhorar coordenação, consciência corporal ou capacidade de relaxamento. Quando existe dor, simplesmente mandar contrair mais pode não responder ao problema daquela paciente”, explica Regiane.
A fisioterapia pélvica também pode envolver educação corporal, percepção da musculatura, técnicas de relaxamento e outras estratégias definidas a partir da avaliação funcional.
“Perdi a libido depois do câncer. É hormonal?”
Não necessariamente. Fernanda explica que o desejo sexual não depende de uma única variável.
Alterações hormonais podem participar, mas também entram nessa avaliação dor, fadiga, qualidade do sono, medicamentos, medo de recorrência da doença, autoestima, alterações da imagem corporal, saúde emocional e relacionamento.
“É justamente por isso que a solução não é simplesmente procurar alguma coisa para ‘aumentar a libido’. Primeiro precisamos compreender o que está acontecendo com aquela mulher. Se a relação dói, por exemplo, é perfeitamente compreensível que ela passe a evitá-la. Tratar apenas o desejo sem olhar para a dor seria ignorar parte importante do problema”, afirma.
O parceiro ou parceira também pode ter medo de machucar, receio de abordar sexualidade durante ou depois do tratamento ou dificuldade de compreender as mudanças físicas e emocionais vividas pela mulher.
Nesse contexto, a comunicação sobre a intimidade pode fazer parte do acompanhamento psicológico.
“O casal pode conversar sobre o que traz conforto, o que provoca receio e quais limites precisam ser respeitados para que a relação permaneça em harmonia. Carinho e proximidade não precisam funcionar como uma expectativa de relação sexual, até, porque, o corpo da mulher muda demais depois de todo tratamento. Essa conversa ajuda a dar espaço à vontade da mulher, sem transformar a intimidade em mais uma cobrança”, afirma a psicóloga Laura Zambotto.
E quando é seguro voltar a ter relações?
Não existe uma data universal.
O momento depende do tratamento realizado, da recuperação cirúrgica, da presença de complicações, dos sintomas, do estado clínico e, fundamentalmente, da vontade da própria mulher.
Depois de uma cirurgia, por exemplo, é necessário respeitar o período de recuperação e as orientações da equipe responsável.
Mas estar clinicamente liberada não significa estar emocionalmente pronta. Nesse processo, o acolhimento também precisa considerar a maneira como a mulher se sente diante das mudanças no corpo.
“Estar aliviada por ter passado pelo tratamento não impede que a mulher sinta insegurança ou tristeza com as mudanças que viveu, pois não somente seu corpo mudou, mas seu emocional também e a mulher precisa de um tempo para se adaptar a sua nova forma de ser. Ela precisa encontrar espaço para falar sobre isso, sem a cobrança de voltar a ser como antes. Na intimidade, seus desejos e limites precisam ser respeitados”, diz Laura.
Sentir vontade de retomar a vida sexual também não significa que a dor deva ser aceita.
“Quando qualquer alteração causa sofrimento, afasta essa mulher da intimidade ou compromete sua qualidade de vida, já existe motivo para conversar com o profissional que a acompanha. Ela não precisa esperar que o problema fique grave para falar sobre isso”, afirma Fernanda.
Regiane acrescenta que a própria experiência da retomada pode fornecer informações importantes.
“Se existe dor, medo da penetração, sensação de que a musculatura não consegue relaxar ou qualquer outro desconforto persistente, vale investigar. Não é preciso insistir repetidamente em uma situação dolorosa esperando que o corpo simplesmente se acostume.”
Outubro Rosa também precisa falar sobre a vida que vem depois
Prevenção, diagnóstico precoce, acesso ao tratamento e redução da mortalidade continuam sendo fundamentais. O acompanhamento das mulheres durante e depois do tratamento também precisa ter espaço nessa conversa.
Para Fernanda, incorporar qualidade de vida ao cuidado não diminui a seriedade do câncer.
“É exatamente o contrário. Trabalhamos tanto para que essa mulher sobreviva porque queremos que ela tenha vida pela frente. E saúde sexual, intimidade e bem-estar também fazem parte dessa vida.”
Regiane concorda que a recuperação não deveria ser resumida à ausência da doença.
“Às vezes, a paciente acredita que deveria aceitar a dor porque já passou por algo muito maior. Mas ela não precisa escolher entre estar viva e estar bem. Se existe uma queixa que interfere na vida dela, essa queixa merece ser ouvida e avaliada.”
Para a psicóloga Laura Zambotto, esse cuidado também envolve acolher o que a mulher sente e deseja para a própria vida.
“Ela precisa ter espaço para falar sobre seus medos, suas mudanças e seus desejos, sem sentir que deveria apenas estar agradecida por ter sobrevivido. Retomar a vida pode envolver descobrir outras formas de se reconhecer e de se relacionar, respeitando o próprio tempo e se adaptando à sua nova realidade”, afirma.
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