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30\01: Cia Nu Escuro estreia espetáculo que revisita “O Alienista”, 20 anos depois

“A Casa Verde”, novo trabalho da companhia, será apresentado na Oficina Cultural Gepetto

Felipe Ferro, Izabela Nascente e Lázaro Tuim formam o elenco de “A Casa Verde” – foto: Layza Vasconcelos

No ano em que completa três décadas de estrada, a Cia de Teatro Nu Escuro apresenta um novo trabalho ao público de Goiânia. Sob direção de Rô Cerqueira, o grupo estreia “A Casa Verde” no próximo dia 30 de janeiro, às 20 horas, na Oficina Cultural Gepetto. O espetáculo é uma releitura contemporânea de outro trabalho da cia, “O Alienista”, de 2006, inspirado no conto homônimo de Machado de Assis.

Vinte anos depois, a Nu Escuro apresenta uma nova montagem deste trabalho que percorreu diversos estados e impressionou o público ao questionar loucura, poder e controle social. O novo formato promete ao público uma experiência performativa e multimídia. Esta montagem encerra o projeto de manutenção da companhia, contemplado pelo Edital nº 16/2024 – Fomento à Manutenção Continuada de Grupos e Companhias Artísticas (PNAB/Lei Aldir Blanc). 

 “Casa Verde” parte da narrativa criada por Machado de Assis no século XIX – a história do Dr. Simão Bacamarte e sua tentativa de catalogar e curar a loucura na pequena Itaguaí – para interrogar nosso presente. “Quem define o que é loucura? Quem tem o poder de internar, diagnosticar, normalizar? Em uma sociedade marcada por crises de saúde mental, medicalização da vida e pela ascensão de figuras messiânicas que prometem salvar a todos, as perguntas machadianas ecoam com força total”, contextualiza a diretora, Rô Cerqueira. 

Se a primeira versão do trabalho, dirigida por Hélio Fróes, levou para o palco tradicional a discussão sobre saúde mental e controle social, a nova versão apresenta uma urgência renovada. Estes temas, percebidos pelo grupo como atuais ainda em 2006, agora se mostram mais urgentes. “Vivemos tempos em que os limites entre razão e loucura, normalidade e desvio, são constantemente redefinidos por poderes institucionais, discursos médicos e mecanismos de vigilância cada vez mais sofisticados”, comenta a diretora.

Em palco estarão Lázaro Tuim, Izabela Nascente e Felipe Ferro. O trabalho tem apoio cênico de Adriana Brito e Hélio Fróes. A trilha sonora é assinada por Mastrela e a iluminação por Júnior de Oliveira.

Novo formato

“A Casa Verde” dialoga com artes visuais, performance, vídeo e música, criando uma linguagem híbrida que reflete a fragmentação e a multiplicidade do contemporâneo.  “A opção estética não é apenas formal: é uma escolha política de recusar narrativas lineares e totalizantes, abrindo espaço para leituras plurais e contraditórias”, compartilha Rô Cerqueira. 

O público será conduzido por diferentes ambientes e cômodos da Oficina Cultural Geppetto, tradicional espaço cultural goianiense que abriga a sede do grupo. “A itinerância não é apenas um recurso cenográfico, mas parte fundamental da proposta: ao transitar pelos espaços, o espectador experimenta na própria pele o deslocamento, a desorientação, a perda de referências – sensações que ecoam a experiência da loucura e do confinamento”, complementa Cerqueira. 

A decisão de remontar “O Alienista” após 20 anos não é nostálgica, mas estratégica. Rô Cerqueira comenta como isso revela a maturidade artística de um grupo que ousa revisitar suas próprias criações, confrontando-as com o presente e com novas urgências. “A Cia de Teatro Nu Escuro se consolida assim como uma das principais referências do teatro goiano, capaz de manter viva uma pesquisa de longo prazo, de dialogar com diferentes gerações de artistas e de reinventar suas próprias práticas”, justifica Rô Cerqueira. 

Questões de gênero e o fim do messianismo

Uma das principais atualizações desta montagem diz respeito ao olhar sobre as mulheres. No conto de Machado, figuras femininas, como D. Evarista, esposa do Dr. Bacamarte, aparecem à margem das grandes decisões, reduzidas a papéis domésticos ou ornamentais. “Casa Verde” investe em reler essas presenças, questionando os silenciamentos históricos e dando voz e corpo às mulheres apagadas pela narrativa oficial. “Mais do que isso, o espetáculo propõe uma crítica radical ao culto dos salvadores individuais. Se o Dr. Bacamarte encarna o cientista iluminado que, sozinho, pretende curar toda a sociedade, a montagem questiona essa lógica messiânica tão presente em nossos tempos”, antecipa Rô.

Contra a figura do gênio solitário, do líder carismático, do especialista infalível, “Casa Verde” aponta para a necessidade de construções coletivas, de saberes compartilhados, de uma sociedade que se pensa e se transforma em conjunto. “Em tempos de polarização, fake news e culto à personalidade, a peça nos lembra que não há salvação individual – e que toda tentativa de impor uma verdade única sobre o que é normal, saudável ou aceitável carrega em si o germe do autoritarismo”, compartilha a diretora.

Sobre a Cia de Teatro Nu Escuro

A Cia de Teatro Nu Escuro é um grupo de atores-encenadores que trabalha coletivamente, de forma horizontal desde 1996, tendo montado 15 espetáculos e realizado inúmeras oficinas de formação profissional e de público em diversos estados brasileiros e também no exterior, consolidando-se como uma das principais companhias de teatro do Centro-Oeste. Grupo de referência no cenário teatral goiano, a Cia de Teatro Nu Escuro tem sede na Oficina Cultural Geppetto e desenvolve pesquisas artísticas que dialogam com questões sociais e políticas contemporâneas. 

Com uma trajetória marcada pela investigação de linguagens híbridas e pela reflexão crítica sobre a sociedade brasileira, o grupo se consolida como um dos principais coletivos artísticos de Goiânia. O trabalho contínuo, a trajetória de pesquisas, os investimentos em novas linguagens e a cumplicidade com o público vem rendendo importantes frutos como a Caravana Funarte (2004); Prêmio Agepel de Teatro (2005 e 06); Destaque Cultural do Ano (2005) e Medalha de Mérito Cultural (2010) pelo Conselho Estadual de Cultura de Goiás; Procultura/ Ministério da Cultura (2010); Prêmio Funarte Myriam Muniz (2006, 10 e 11); Prêmio Artes Cênicas na Rua (2009, 11, 12 e 13); Prémio Juriti, pelo Conselho Municipal de Cultura de Goiânia (2019); Palco Giratório/ Sesc (2015) e foi contemplado com patrocínio Petrobras entre os anos 2013 à 2016. 

Serviço: Cia de Teatro Nu Escuro estreia “A Casa Verde”

Data: 30 de janeiro

Horário: 20 horas

Local: Oficina Cultural Gepetto, Rua 1013, Quadra 39, Lote 11, 467 – St. Pedro Ludovico

Entrada franca

Mais informações: https://www.instagram.com/ciadeteatronuescuro/

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