Projeto audiovisual gravado ao vivo em Amsterdã marca a estreia de Vitor Araújo como solista de uma orquestra sinfônica de porte internacional
O pianista e compositor recifense Vitor Araújo lançou no Brasil, pelo selo RISCO, o álbum audiovisual TORÓ, registrado ao vivo em Amsterdã ao lado da Metropole Orkest – mais importante orquestra sinfônica permanente dedicada a jazz, pop e world music da Europa. O projeto, que também ganha versão em filme-concerto, chega cercado por forte repercussão internacional e posiciona Araújo como um dos nomes mais instigantes da nova música instrumental brasileira.
A recepção da imprensa europeia reforça o alcance do trabalho. A revista italiana Musica Jazz dedicou quatro páginas ao artista, classificando-o como “uma das mais interessantes personalidades a emergir nos últimos tempos”. Já a britânica Songlines Magazine destacou sua “criatividade incandescente”, aproximando-o da linhagem de Heitor Villa-Lobos, enquanto a alemã Le Groove ressaltou que “quando se pensar em música inovadora que arrebata, Vitor Araújo é o nome que deve vir à mente”.
Sob regência do maestro Jacomo Bairos, TORÓ foi apresentado em noite única no Holland Festival. Como solista e compositor à frente da Metropole, Araújo passa a integrar um seleto grupo de artistas que já colaboraram com a orquestra, entre eles Ella Fitzgerald, Brian Eno, Jacob Collier e o coletivo Snarky Puppy. Vencedora de quatro Grammys e com mais de 20 indicações ao prêmio, a Metropole Orkest produziu álbuns anteriormente com dois outros artistas brasileiros: Edu Lobo e Ivan Lins.
O projeto reúne ainda um elenco de músicos brasileiros de diferentes gerações e trajetórias formando a banda de apoio de Vitor. Destaque para a presença de Mauro Refosco: diretor musical de David Byrne, o catarinense radicado em Nova York já realizou turnês como músico do Red Hot Chilli Peppers e é criador da banda Atoms For Peace, junto a Thom Yorke e Flea. Aduni Guedes, Amendoim, Felipe Pacheco Ventura e Charles Tixier completam o time de TORÓ e juntos constroem uma tessitura que articula a percussividade nordestina e elementos eletrônicos em diálogo direto com a potência sinfônica europeia e a escrita orquestral contemporânea.
“TORÓ nasce de um desejo de atravessar fronteiras sem perder a raiz. É a chuva forte que vem do Nordeste, que transforma tudo ao redor e encontra, na orquestra, um outro corpo para expandir essa energia”, afirma Vitor Araújo, que traz consigo dessa realização uma história de cinema: no exato dia do concerto uma agressiva infecção no dedo anelar quase levou ao cancelamento da apresentação pela junta médica do Holland Festival. Ao invés disso, o pianista decidiu subir no palco contra todas as indicações e durante uma tarde re-escreveu e re-estudou suas partes de piano para tocar à noite com apenas 9 dedos.
A dimensão audiovisual amplia a experiência do álbum. Dirigido por Paulo Camacho e Yara Ktaishe, o filme-concerto traduz em imagens a intensidade da apresentação. Após pré-estreias na Sala São Paulo e no Cinema São Luiz(Recife), a obra está disponível na íntegra nos canais de YouTube do artista e da orquestra.
Gravado em Amsterdã, TORÓ propõe uma travessia sonora que consolida o protagonismo da música pernambucana no cenário global. Um trabalho que expande fronteiras e reafirma, em som e imagem, a força de uma criação brasileira em plena circulação internacional.
Sobre as faixas:
Toque n.1
A abertura do concerto se dá através de uma das “macumbas orquestrais” do repertório, peça maximalista com forte inspiração nos trabalhos instrumentais de Villa-Lobos, Moacir Santos e Antônio Carlos Jobim, onde melodias e harmonias com característica de cantiga brasileira vão se avolumando numa espiral crescente entre orquestra, piano e percussões.
Toque n.3
Faixa inspirada nas agremiações de afoxé que saem às ruas no carnaval de Recife e Olinda. Um confronto entre os frenéticos elementos cíclicos e percussivos em 140bpm e a melancolia espacial da voz e das cordas da orquestras, com ambos elementos pairando etéreos sobre a acelerada sessão rítmica.
Toque n.2
Talvez a mais experimental das músicas de TORÓ, onde um rádio de pilha sintonizado ao vivo é o instrumento solista à frente da orquestra sinfônica. A faixa, construída com técnica minimalista, traz uma homenagem às peças para rádio do vanguardista John Cage e também uma memória da já clássica performance ao vivo do Radiohead tocando “National Anthem”.
Canto n.5
Seguindo esse trecho mais especulativa do álbum, “Canto n.5” tem uma veia mais pop, com melodia de voz, sintetizador, guitarra, drum machines, MPC, vibrafone e as paisagens sonoras grandiosas da Metropole Orkest, desenhando uma música onírica que bebe da estética do trip-hop.
Canto n.1
Mais longa das 9 faixas do disco, essa peça passeia por diversos panoramas emocionais, começando com um improviso ingênuo de piano solo e terminando com todo o peso das alfaias pernambucanas. No meio do caminho vamos achando gestos de orquestra típicos do tropicalismo de Rogério Duprat, e a enorme preponderância dos ilús nagô e suas claves afro-brasileiras.
Toque n.4
Peça íntima para piano solo e orquestra, talvez a única do repertório onde o piano é de fato instrumento protagonista e certamente a mais doce e contemplativa música de TORÓ. É também a única composição assinada em parceria. O outro responsável por sua criação é o também pernambucano Mateus Alves, conhecido pela trilha sonora original dos filmes premiados em Cannes “Agente Secreto” e “Bacurau”.
Toque n.6
Lançada ainda em 2025 como single, “Toque n.6” traz fortes ecos da tradição instrumental brasileira de explorar os limites e as intersecções entre erudito e popular. Um compêndio de ritmos se mostra aos poucos como um mosaico: o Toré indígena, o Boi do Maranhão, o Maracatu e, finalmente, quando todos os instrumentos se calam sobra um Côco violento com as percussões estremecendo as paredes do teatro.
Canto n.6
Difusa e oceânica, a voz molhada de eco carrega essa melodia que nunca se repete e caminha como que sem rumo, sozinha, até encontrar sua vestimenta das camadas profundas da Metropole Orkest. Felipe Pacheco Ventura na guitarra traz cores inspiradas na banda islandesa Sigur Rós, enquanto Mauro Refosco tira sons improváveis de sua percussão, como se fossem ruídos submersos na água.
Canto n.3
Fechamento do concerto com uma “quase-canção”. A voz murmura fonemas que parecem estar na iminência de virarem palavras, enquanto um crescente acúmulo de camadas sonoras violentas se sobrepõem ao frenesi tribal das alfaias. Culmina o clímax da música e do concerto, quando todos tocam no máximo da potência: orquestra, banda e artista num tutti explosivo.
Links importantes:
Filme-concerto completo — youtu.be/FSQrCrCfH4Q
Álbum nas plataformas digitais — orcd.co/toro_vitor_metropole
Trailers — https://bit.ly/4tAXf9P