Turnê “Deixa eu dizer” estreia em São Paulo no dia 6 de março e reúne Alaíde Costa, Ayrton Montarroyos e Patricia Marx em uma noite de encontros entre gerações da MPB.
A cantora Claudya celebra seis décadas de trajetória artística com a estreia, em São Paulo, da turnê “Deixa eu dizer”, no dia 6 de março, na Casa Natura Musical. O espetáculo marca um momento simbólico de celebração, memória e renovação, reunindo no palco convidados especiais que dialogam diretamente com a história, a elegância e a força interpretativa da artista: Alaíde Costa, Ayrton Montarroyos e Patricia Marx.
Com uma carreira iniciada nos anos 1960, Claudya construiu um percurso singular na música popular brasileira, transitando com naturalidade entre o samba, a bossa nova, o soul, a canção romântica e a música internacional. Dona de uma voz marcante, de timbre quente e fraseado preciso, ela se destacou desde cedo não apenas como intérprete, mas como uma artista atenta ao tempo histórico, às transformações estéticas e às múltiplas linguagens da canção brasileira.
Ao longo de 60 anos, Claudya lançou discos importantes, participou de festivais, programas de televisão, projetos especiais e colaborou com músicos, arranjadores e compositores fundamentais da cena brasileira. Sua trajetória atravessa diferentes fases da indústria fonográfica e do próprio país, mantendo sempre como eixo central a força da interpretação e o compromisso com a emoção direta, sem excessos ou artifícios.
A turnê “Deixa eu dizer” nasce justamente desse desejo de olhar para trás sem nostalgia paralisante, propondo uma escuta atualizada de um repertório que dialoga com diferentes gerações. O título do espetáculo sugere esse gesto de afirmação da palavra e da voz — um convite para que Claudya conte sua história cantando, mas também para que o público reconheça, nesse percurso, fragmentos da própria memória afetiva da música brasileira.
No palco, o show se estrutura como um encontro entre passado, presente e futuro. O repertório revisita canções emblemáticas de sua discografia, clássicos que marcaram época e interpretações que ajudaram a consolidar seu nome, ao mesmo tempo em que abre espaço para releituras e diálogos com artistas convidados que representam distintas gerações da MPB.
Para a artista, “Esse show é a “celebração de um período importante da minha trajetória e a comemoração dos meus 60 anos de carreira”, ao comentar a oportunidade de abrir a temporada no palco da Casa Natura Musical. Este novo ciclo vem acompanhado do relançamento em vinil dos álbuns Jesus Cristo (1971) e Deixa Eu Dizer (1973), marcos de sua discografia e da música brasileira.
“A ideia é passear pelos álbuns mais significativos da carreira. Levarei para o palco o melhor das canções que gravei na década de 70 como: “Menina Fulô”, “Só que deram o zero pro Bedeu”, “Pois é, seu Zé”, “Como dois e dois são cinco”, além de homenagear dois compositores importantes nessa trajetória que são Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle”, comenta Claudya sobre a escolha do repertório, que inclui ainda grandes sucessos de “Você, Cláudia, Você” (1971) e “Reza, Tambor e Raça” (1977).
A presença de Alaíde Costa confere ao espetáculo uma dimensão histórica e simbólica especial. Duas vozes que atravessaram décadas, romperam barreiras e ajudaram a redefinir o lugar da mulher na música brasileira se encontram em cena para celebrar a canção como resistência, delicadeza e permanência. Já Ayrton Montarroyos surge como elo entre tradição e contemporaneidade,
reconhecido por sua pesquisa vocal e seu respeito às matrizes da canção brasileira. Patricia Marx, por sua vez, adiciona ao encontro uma camada pop e urbana, reafirmando a transversalidade do repertório e a capacidade de Claudya de dialogar com diferentes universos estéticos.
Mais do que um show comemorativo, “Deixa eu dizer” se apresenta como um gesto artístico de afirmação. Claudya reafirma sua relevância não apenas pelo que construiu ao longo de seis décadas, mas pela maneira como permanece em movimento, aberta ao encontro, à escuta e à reinvenção. O espetáculo valoriza a presença cênica, a palavra cantada e a emoção compartilhada, apostando na força do encontro ao vivo como experiência sensível e coletiva.
A estreia em São Paulo marca o início de uma turnê que deve circular por outras cidades, levando ao público um espetáculo que celebra a longevidade artística sem recorrer à nostalgia fácil. Em “Deixa eu dizer”, Claudya canta o tempo — o seu, o da música brasileira e o de quem a escuta — reafirmando que uma grande intérprete não se mede apenas pela história que construiu, mas pela capacidade de continuar dizendo, cantando e emocionando.
Claudya
Nascida Maria das Graças Rallo, no subúrbio do Rio de Janeiro, Claudya mudou-se ainda criança com a família para Juiz de Fora, em Minas Gerais. Foi ali que começou a cantar em festas escolares e programas de auditório locais, chamando atenção desde cedo pelo talento e pela presença de palco. Aos 17 anos, em busca de oportunidades profissionais mais amplas, mudou-se novamente com a família, dessa vez para São Paulo, então um dos principais polos da música popular brasileira e sede de programas televisivos que funcionavam como verdadeiras vitrines para novos talentos.
Naquele momento, um dos espaços mais cobiçados era O Fino da Bossa, exibido pela TV Record. Foi o trompetista Waldir de Barros, músico da orquestra da emissora e figura que Claudya considera seu grande apoiador, quem sugeriu que a jovem cantora fizesse um teste para o programa. Aprovada, foi contratada e escalada para a segunda parte da atração, dividindo o palco com nomes como Elis Regina, Jair Rodrigues e Baden Powell. Foi ali que Maria das Graças deixou de existir artisticamente: por sugestão da própria cantora — inspirada na ascendência italiana do pai —, adotou o nome Cláudia. “Eles queriam um nome marcante”, relembra. Décadas depois, nos anos 1990, a grafia seria alterada para Claudya, por sugestão da numerologia.
O início era promissor, mas aquele período também marcaria um dos episódios mais dolorosos de sua trajetória. Em 1965, impulsionada pelas aparições na televisão, gravou seu primeiro disco, um compacto. No ano seguinte, foi convidada pelo jornalista e produtor Ronaldo Bôscoli para uma temporada de shows no Rio de Janeiro. A proposta inicial — batizar o espetáculo de Quem Tem Medo de Elis Regina? — causou estranhamento imediato. Claudya nunca compreendeu a ideia e recusou o título, que acabou sendo substituído por Cláudia: Não Se Aprende na Escola. Ainda assim, a história se espalhou e a cantora tornou-se alvo do que hoje se chamaria de fake news: passou a ser vista como oportunista, alguém que desejava ocupar o espaço de Elis.
Segundo Claudya, nada foi feito para desfazer o mal-entendido. “A intenção deles era botar mais lenha na fogueira, porque O Fino da Bossa estava perdendo audiência para o programa Jovem Guarda, do Roberto Carlos. Queriam fomentar rivalidade, briga — e eu não queria nada disso. Eu queria cantar, trabalhar, ganhar meu dinheiro”. Ela lamenta nunca ter conseguido conversar sobre o assunto com Elis, falecida em 1982. “Eu precisava falar com ela, sentia essa necessidade, mas infelizmente não foi possível”.
Mesmo com a insistência da direção para que permanecesse no programa, Claudya deixou a Record e migrou para a TV Excelsior, onde passou a integrar o elenco do Ensaio Geral, ao lado de artistas como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Maria Bethânia. Ainda assim, o episódio afetou suas oportunidades no Brasil. Diante do cenário, decidiu ir para o Japão, onde permaneceu por seis meses realizando shows e gravando dois compactos e um LP. De volta ao país, encontrou nos festivais da canção um novo impulso: participou de disputas na TV Record e na TV Excelsior, além de festivais internacionais, defendendo obras de compositores como Marcos e Paulo Sérgio Valle, Baden Powell e Paulo César Pinheiro.
Apesar da visibilidade, Claudya nunca se sentiu confortável com rótulos. “Nunca gostei de ser marcada como cantora disso ou daquilo: romântica, de samba, de festival. Eu era crooner de orquestra, de grupos musicais em Juiz de Fora, estava acostumada a cantar de tudo”, afirma. Essa versatilidade marcou também sua passagem pela Odeon, no início dos anos 1970, quando lançou alguns de seus discos mais importantes.
O álbum Jesus Cristo (1971), impulsionado pela regravação da canção de Roberto e Erasmo Carlos, foi um grande sucesso, seguido por Você, Cláudia, Você e Deixa Eu Dizer. No auge da carreira, porém, outro revés: segundo a cantora, a chegada de Clara Nunes ao cast da gravadora fez com que as atenções se concentrassem exclusivamente na nova estrela.
Àquela altura, Claudya já compunha — em um período, como ela própria observa, em que “não se confiava muito nas mulheres compositoras”.
Um dos capítulos mais marcantes de sua trajetória viria em 1983, quando foi escolhida para protagonizar o espetáculo Evita, sobre Eva Perón. Cantando, dançando e atuando ao lado de Mauro Mendonça e Carlos Augusto Strazzer, permaneceu nove meses em cartaz no Rio de Janeiro. “Titubeei muito para aceitar, porque não era atriz e sabia que seria comparada a Bibi Ferreira e Marília Pêra. A trilha sonora era dificílima”, recorda. O esforço foi recompensado com elogios da crítica, capas em jornais e revistas e indicação ao Prêmio Molière.
Décadas depois, em 2008, sua voz alcançaria uma nova geração de forma inesperada. O sample de Deixa Eu Dizer — gravada por Claudya em 1973, de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza — foi utilizado por Marcelo D2 no rap Desabafo, do álbum A Arte do Barulho. A canção se espalhou pelas rádios, pistas e chegou à trilha sonora de Velozes e Furiosos 5: Operação Rio. Subitamente, jovens ouvintes passaram a buscar seus discos e sua história, abrindo um novo e significativo capítulo em sua carreira.
Hoje, aos 77 anos e celebrando 60 anos de trajetória, Claudya segue fiel ao que define como teimosia: cantar. Mãe da cantora Graziela Medori, ela mantinha, antes da pandemia, uma série de shows comemorativos dedicados à própria obra. Para o historiador e pesquisador Ricardo Santhiago, “Claudya é uma cantora extraordinária, com timbre, técnica e percepção musical absolutamente únicos”. Segundo ele, os percalços enfrentados ao longo da carreira se agravam em um mercado musical que mudou radicalmente desde os anos 1960. “Por isso, é importante historicizar sua trajetória sem vitimismo”, afirma.
Discografia
1967 – Cláudia
1971 – Cláudia
1971 – Jesus Cristo
1971 – Você, Cláudia, Você
1973 – Deixa Eu Dizer
1977 – Reza, Tambor e Raça
1979 – Pássaro Emigrante
1980 – Cláudia
1985 – Luz da Vida
1986 – Sentimentos
1992 – A Estranha Dama
1994 – Leão de Judá
1994 – Entre Amigos (com Zimbo Trio)
1998 – Claúdya Canta Taiguara
1999 – Brasil Real
2005 – Horizons
2011 – Senhor do Tempo: Canções Raras de Caetano Veloso
2016 – Para Sempre Amanhecer – Duo com o pianista Tiago Mineiro