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Bioclin ganha mercado em setor que movimentou R$ 3,5 bilhões no semestre

Fabricante mineira cresce 13% e amplia participação em um mercado que avançou 8% no período

O mercado brasileiro de diagnóstico in vitro (IVD) movimentou R$ 3,5 bilhões no primeiro semestre de 2026, com crescimento de 8% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo dados do painel da Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL). Em um cenário de expansão, a mineira Bioclin avançou em ritmo ainda maior: cresceu 13% no período, ampliou sua participação no mercado e se consolida entre as quatro maiores fabricantes de capital nacional do mercado de diagnóstico laboratorial e entre as três maiores em reagentes.

O movimento reforça a estratégia de crescimento da empresa, que completa 50 anos em 2027 e está concluindo a ampliação de seu parque fabril em Belo Horizonte. A nova estrutura irá ampliar a capacidade produtiva e dar suporte a uma expansão anual superior a 15%.

O avanço da companhia ocorre, porém, em um mercado marcado por um desafio estrutural que ultrapassa as fronteiras das empresas: a dependência brasileira de matérias-primas, componentes e tecnologias importados. Na prática, mesmo produtos fabricados em território nacional ainda dependem, em grande medida, de insumos produzidos no exterior, o que expõe a indústria às oscilações cambiais e aos movimentos das cadeias globais de fornecimento.

Produção nacional

A dificuldade de ampliar a participação da indústria brasileira na cadeia da saúde também aparece nos indicadores da Nova Indústria Brasil (NIB), política de desenvolvimento industrial do governo federal. Entre as seis missões estratégicas estabelecidas pelo programa, a Missão 2, dedicada ao Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS), é a única que não deve atingir a meta prevista para 2026.

O objetivo estabelecido para este ciclo era fazer com que a produção nacional atendesse a 50% das necessidades do mercado interno de saúde. Os indicadores atuais apontam, contudo, que a indústria brasileira responde por cerca de 42% dessa demanda.

A distância em relação à meta evidencia gargalos históricos, como a dependência de insumos farmacêuticos, químicos e biológicos importados, a transferência ainda limitada de tecnologias e a complexidade regulatória para a atração de investimentos de longo prazo. O reflexo também aparece na balança comercial. Em 2025, o déficit brasileiro no segmento de equipamentos e insumos médicos chegou a US$ 9,2 bilhões, impulsionado principalmente pela importação de produtos de maior complexidade tecnológica e matérias-primas utilizadas na fabricação de medicamentos e reagentes.

Para a indústria de diagnóstico, a questão é especialmente relevante. Reagentes e kits de alta precisão dependem de uma cadeia de fornecedores capaz de oferecer matérias-primas químicas e biológicas com regularidade, escala e padrão tecnológico. Enquanto essa estrutura não se consolida no país, fabricantes locais permanecem expostos às variações do câmbio e a eventuais interrupções ou encarecimento do fornecimento internacional.

Escala industrial

É nesse ambiente que a Bioclin estrutura seu próximo ciclo de crescimento. A companhia encerrou 2025 com faturamento de aproximadamente R$ 150 milhões e projeta expansão superior a 15% em 2026. A ampliação do parque fabril, construída no próprio terreno da empresa, visa escalar a capacidade de produção e acompanhar o aumento da demanda.

O impacto reflete também na estrutura da companhia. Atualmente com cerca de 300 colaboradores, a empresa prevê contratar entre 50 e 100 novos profissionais até o fim de 2026. O portfólio reúne mais de 300 itens, entre reagentes tradicionais e soluções de biologia molecular, e só em 2025 já foram lançados mais de 30 produtos.

O crescimento está apoiado em três frentes estratégicas: biologia molecular, com soluções voltadas à precisão genética; triagem neonatal e pré-natal; e a divisão veterinária, que representa atualmente 15% das vendas e tem sido impulsionada pelo desenvolvimento de diagnósticos rápidos para clínicas e consultórios veterinários.

O modelo de negócio também combina expansão da base instalada e geração de receita recorrente. Os equipamentos têm valor estimado entre R$ 50 mil e R$ 100 mil cada e funcionam como porta de entrada para o fornecimento contínuo dos reagentes utilizados pelos clientes.

Menos dependência

A ampliação da produção não elimina, entretanto, o desafio da dependência externa. Cerca de 80% das matérias-primas utilizadas pela Bioclin ainda são importadas. Para reduzir essa exposição, a empresa mantém iniciativas voltadas à aproximação entre pesquisa acadêmica e indústria.

Por meio do programa Bioclin Educar, a fabricante concede bolsas de pesquisa e insumos a estudantes e pesquisadores de universidades brasileiras. O foco principal é estimular o desenvolvimento de novas tecnologias diagnósticas no país. No longo prazo, a iniciativa também contribui para fortalecer a base científica e industrial necessária à formação de uma cadeia nacional de fornecedores de matérias-primas para o setor.

Mais de 20 pesquisadores com titulação de mestrado ou doutorado atuam no departamento de Pesquisa e Desenvolvimento da companhia. A estratégia busca transformar conhecimento produzido nas universidades em soluções capazes de chegar à escala industrial e, no longo prazo, reduzir a necessidade de importação.

A agenda de nacionalização ganha relevância diante das metas da NIB. Embora a indústria brasileira não deva alcançar os 50% de participação na demanda interna previstos para 2026, o programa estabelece como objetivo elevar esse índice para 70% até 2033. Para chegar lá, especialistas e representantes do setor apontam a necessidade de ampliar o investimento em inovação, aproximar universidades e empresas e utilizar instrumentos de política industrial, como Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs) e encomendas tecnológicas.

Mercado externo

Paralelamente ao avanço no mercado doméstico, a Bioclin amplia sua presença internacional. A empresa já exporta para países da América Latina, África, Paquistão e Bangladesh e ganhou projeção com o desenvolvimento de um teste rápido para hanseníase, incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS) após aprovação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec).

A companhia trabalha agora na internacionalização do produto para regiões endêmicas da Ásia e da América do Sul, ampliando uma operação que combina mercado interno, exportações e desenvolvimento tecnológico próprio.

Fundada em 1977 pelo professor Victor Arndt, a Bioclin passou por uma reestruturação após a morte do fundador, em 2019. A transição para a segunda geração, liderada pelo CEO Victor Arndt Jr. ao lado do irmão, Silvio Arndt, incluiu a profissionalização da gestão, com apoio da Fundação Dom Cabral, a criação de um comitê familiar e a preparação da terceira geração, que já participa da operação.

A expansão da empresa acompanha, assim, uma transformação mais ampla do mercado brasileiro de diagnóstico. O crescimento do consumo e dos investimentos amplia o espaço para fabricantes nacionais, mas a consolidação de uma indústria mais competitiva depende também de uma cadeia de suprimentos menos vulnerável às importações.

Para a Bioclin, ganhar participação de mercado significa, portanto, ampliar produção e portfólio, mas também avançar na construção de uma cadeia tecnológica nacional. A equação entre escala, inovação e redução da dependência externa será determinante para que o crescimento da indústria de diagnóstico in vitro se traduza em maior participação brasileira em toda a cadeia da saúde.

(Crédito: Divulgação)

Claudio Moreira: